Se você anda de ônibus, já deve ter visto as pessoas espremidas entre si e rolando a tela do celular entre um vídeo e outro em menos de dois segundos (talvez você também seja essa pessoa, que deu uma pausa no seu celular para descansar os olhos por alguns segundos). Esse é o nosso mundo, hoje. Impensável há algumas décadas.
O que deveria ser a era da informação se tornou a era da desinformação, graças ao poder oculto da manipulação algorítmica aliada à ascensão dos conteúdos gerados pelo mito da Inteligência Artificial. Mito porque IA não passa de tentativa de previsão do futuro a partir da estatística aplicada a dados do passado, não há inteligência, até onde sabemos, uma propriedade exclusiva de organismos biológicos.
Um dos efeitos negativos da manipulação algorítmica causada pelas "redes sociais" (na realidade, empresas de dados) é a abstenção voluntária da consciência, um dos objetivos do capitalismo; tornar a pessoa tão alienada quanto a máquina que ela opera. A IA faz tudo o que uma pessoa faz, só que muito mais rápido, mas sem criatividade. Mas quem se importa? Pessoas criativas só são reconhecidas se essa criatividade for usada para negócios, fora disso, o vazio...
O Fediverso era um dos últimos lugares possíveis de se encontrar essa liberdade criativa, pelo menos até antes das levas de pessoas vindas de redes intermediadas por algoritmos, principalmente o antigo Twitter.
Pessoas que afirmam explicitamente nunca terem desenhado, pintado ou escrito um único parágrafo sequer, comentam sobre obras artísticas diversas (livros, filmes, séries, pinturas...) como se fossem críticos renomados na área.
Pessoas que acreditam que política e futebol não se discutem (incompreendendo que os preços dos alimentos são resultado da ação ou omissão de ato voltar), comentam sobre a política do leste europeu como se morassem lá.
Pessoas que não diferenciam o crime de racismo da ideia de liberdade de expressão conversam como se todos fossem inimigos, de forma rude. Tudo isso visando o que obtinham antes, nas redes algorítmicas: visualizações e curtidas, a desejada viralização.
Eu deixei o Fediverso não porque me sinto superior a essas pessoas (meu complexo é o oposto, na verdade). Deixei porque me sinto impotente diante desse novo tipo de zumbinismo, o digital. Raimundo Carrero diz que o jornal é a dor do mundo. Acrescento que as redes sociais são o delírio.
Achei interessante este artigo em inglês relacionado ao tema: Losing your mind looking at memes? The dictionary has a word for that. (link externo)